quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Ser o nosso próprio pai

"Casei-me jovem e depressa, cheia de amor e esperança, mas sem conversar muito sobre o que significariam as realidades do casamento. Ninguém me deu conselhos sobre meu casamento. Meus pais haviam me criado para ser independente, auto-suficiente, para tomar as minhas próprias decisões. Quando cheguei aos 24 anos, todos partiam do princípio de que eu era capaz de fazer minhas próprias escolhas de forma autônoma. É claro que o mundo nem sempre foi assim. Se eu houvesse nascido durante qualquer outro século do patriarcado ocidental, teria sido considerada propriedade do meu pai, até que ele me entregasse ao meu marido para que eu me tornasse propriedade sua pelo casamento. Eu teria tido muito pouca coisa a dizer sobre as grandes questões da minha vida. Em outro período da história, caso um homem houvesse se interessado por mim, meu pai poderia ter se sentado com esse homem e desfiado uma longa lista de perguntas para verificar se aquela seria uma união adequada. Ele teria perguntado: "Como você vai sustentar a minha filha? Qual a sua reputação nesta comunidade? Quais são as suas dívidas e bens? Quais são os pontos fortes do seu caráter?" Meu pai não teria simplesmente deixado eu me casar com qualquer um pelo simples fato de eu estar apaixonada pelo sujeito. Na vida moderna, porém, quando tomei a decisão de me casar, meu moderno pai não se intrometeu em nada. Ele não teria interferido nessa decisão, da mesma forma como não teria me dito que penteado usar.

Acreditem em mim: não tenho nenhuma nostalgia do patriarcado. Mas o que passei a perceber foi que, quando o sistema do patriarcado foi (felizmente) desmantelado, ele não foi necessariamente substituído por outra forma de proteção. O que quero dizer é o seguinte: nunca me passou pela cabeça fazer a um pretendente as mesmas perguntas difíceis que meu pai poderia ter-lhe feito, em uma época diferente. Eu me entreguei ao amor muitas vezes, unicamente em nome do amor. E algumas vezes, ao fazer isso, entreguei também tudo que eu tinha. Se eu quiser realmente me tornar uma mulher autônoma, então preciso assumir esse papel de ser minha própria protetora. Em uma frase famosa, Gloria Steinem certa vez aconselhou às mulheres que elas deveriam se transformar nos homens com quem gostariam de se casar. O que só percebi recentemente foi que não apenas eu preciso me transformar no meu próprio marido, mas preciso me transformar também no meu próprio pai. E é por isso que, nessa noite, fui para a cama sozinha. Porque sentia que ainda não estava na hora de eu aceitar um pretendente."


Elizabeth Gilbert

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